BRINCAR
Saber “de onde vim” e o “que vou ser quando crescer” são questões sempre presentes durante toda a infância. A capacidade de brincar abre para a criança um espaço de decifração dos “enigmas” que a rodeiam. A brincadeira é para ela, um espaço de investigação e construção de conhecimentos sobre si mesma e sobre o mundo.
Brincar é uma realidade cotidiana na vida das crianças, e para que elas brinquem é suficiente que não sejam impedidas de exercitar sua imaginação. A imaginação é um instrumento que permite às crianças relacionar seus interesses e suas necessidades com a realidade de um mundo que pouco conhecem, é o meio que possuem para interagir com o universo dos adultos, universo que já existia quando elas nasceram e que só aos poucos elas poderão compreender. A brincadeira expressa a forma como uma criança reflete, ordena, desorganiza, destrói e reconstrói o mundo a sua maneira. É também um espaço onde a criança pode expressar, desejos, medos, sentimentos agressivos e os conhecimentos que vai construindo a partir das experiências que vive.
As crianças sempre brincam. Desde as épocas mais antigas procuram decifrar o mundo através de adivinhas, bonecos, jogos de esconder, pega - pega, jogos com bolas, jogos de construir e demolir construções, os de rolar aros, arcos e rodas, pular obstáculos e cordas, faz de conta, aqueles que reproduzem situações de trabalho realizado por adultos, amarelinhas, as cirandas e a cabra-cega, esta é mencionada como um jogo que é apreciado por crianças e adultos já há 600 anos.
Brincar parece ter sido sempre, de fato, a atividade principal da criança. Nos murais, desenhos, esculturas e pinturas onde as diferentes gerações deixaram registrados aspectos variados da vida cotidiana, podemos observar a presença dos jogos, das brincadeiras e dos brinquedos como elementos que caracterizam os indivíduos representados, demonstrando sua condição de criança.
“Através de uma brincadeira de criança, podemos compreender como ela vê e constrói o mundo – o que ela gostaria que ele fosse, quais as suas preocupações e que problemas a estão assediando. Pela brincadeira, ela expressa o que teria dificuldade em colocar em palavras. Nenhuma criança brinca espontaneamente só para passar o tempo, sua escolha é motivada por processos íntimos, desejos, problemas, ansiedades. O que está acontecendo com a mente da criança determina suas atividades lúdicas, brincar é sua linguagem secreta, que devemos respeitar mesmo se não entendermos.” Bruno Bettelheim.
Desde o momento em que nascem e à medida que crescem, as crianças se esforçam para agir e se relacionar com o ambiente físico e social que as rodeia – um mundo de objetos, relações e sentimentos que, pouco a pouco, vai se ampliando e que elas procuram todo o tempo compreender. Nesse esforço, constroem conhecimentos sobre a realidade e podem ir se percebendo como indivíduos únicos entre outros indivíduos. Em cada momento desse processo de conhecimento, as crianças se utilizam de instrumentos diferentes e sempre adequados a suas condições de pensamento. Por volta dos dois anos, com o desenvolvimento da capacidade simbólica do pensamento, o jogo simbólico, atividade conhecida como jogo de faz de conta, passa a ser a principal atividade da criança, ao lado do desenho, da imitação, da imagem mental e da aquisição sistemática da linguagem formam o conjunto de atividades que caracterizam o período de desenvolvimento que Piaget chamou de pré-operatório ou simbólico. Quando está brincando, a criança cria situações imaginarias em que se comporta, agindo como os adultos e seu conhecimento de mundo se amplia.
O que motiva a brincadeira não é o resultado das ações, isto é, transportar-se para um outro lugar, mas sim o próprio processo da atividade as necessidades que satisfazem são de conhecimento do mundo em que os homens agem e no qual ela precisa aprender a viver. A criança busca aprender, agindo “como se fosse”. A criança sabe que a vassoura continua sendo uma vassoura, enquanto brinca de montar a cavalo, mas no jogo, embora conserve seu significado, a vassoura adquire um sentido diverso, um sentido lúdico. Quando uma criança brinca de médico, de casinha, geralmente reproduz formas de agir de pessoas com as quais convive, além de construir o espaço para brincadeira ela experimenta diferentes papeis sociais a partir da observação do mundo dos adultos.
A brincadeira é, desta forma, um espaço de aprendizagem onde a criança age além de seu comportamento cotidiano e do das crianças de sua idade, embora aparente fazer apenas o que gosta, ela quando brinca aprende as regras das situações que reconstrói. Essa capacidade de sujeição às regras, imposta pela situação imaginada é uma das fontes de prazer no brinquedo.
É na atividade lúdica que a criança também pode conviver com os diferentes sentimentos que fazem parte da sua realidade interior.
As brincadeiras permitem à criança realizar ações concretas, reais, relacionadas com sentimentos que, de outro modo, ficariam guardados. Enquanto brinca, lida com a sua sexualidade e com impulsos agressivos que estão presentes em seu mundo interno. Assim, brincando, a criança vai, pouco a pouco, organizando suas relações emocionais, isso vai dando a ela condições para desenvolver relações sociais, aprendendo a se conhecer melhor e a conhecer e aceitar a existência dos outros.
A maneira de brincar das crianças evolui à medida que elas crescem. Isso fica evidente quando observamos crianças de idades diferentes brincando juntas. Em cada estagio de desenvolvimento do pensamento, os jogos infantis têm características especificas. A atividade lúdica de uma criança difere de acordo com a idade. A medida que as crianças crescem, suas condições de pensamento se desenvolvem e intensifica-se também seu processo de socialização. Os jogos como o faz de conta abrem espaço, progressivamente, para jogos de regras. Estes jogos pressupõem relações sociais ou interindividuais com a cooperação entre os jogadores – a regra é uma regularidade imposta pelo grupo. O jogo de regras é, por isso, considerado a atividade lúdica do ser socializado.
Os jogos como de esconder, cabra-cega, lenço atrás, queimada, tem regras explicitas e desenvolve um papel que se integra com outros, para que a ação se desenvolva, as crianças devem se subordinar a regras que regem as funções de cada participante.
A ocorrência dos jogos que envolvem relações sociais (jogo simbólico) é condição fundamental para o surgimento dos jogos de regras, que serão a atividade lúdica por excelência das crianças a partir dos 6 e 7 anos.
A atividade lúdica infantil inclui, ainda brincadeiras que não supõe qualquer técnica particular, são simples exercícios onde não intervem símbolos ou regras. Esse tipo de brincadeira, chamada por Piaget jogo de exercício, tanto pode ocorrer envolvendo apenas a repetição de ações físicas, como pular corda, rolar pneu, rodar bambolê, como envolvendo ações mentais, isto é, o pensamento, como acontece nos jogos de combinações de palavras ou quando a criança se diverte em fazer perguntas ou inventar uma história, só pelo prazer de perguntar ou contar.
Podemos observar que desde bebês, as crianças se dedicam a jogos de repetir ações: sacudir um chocalho, balançar objetos dependurados, por isso podemos dizer que os jogos de exercício são a primeira forma de brincadeira da criança. À medida que crescem o desenvolvimento físico, intelectual e social habilita-as progressivamente a formas de brincadeiras mais complexas, envolvendo símbolos e regras, sem no entanto eliminar ou mesmo diminuir a ocorrência de jogos de exercício. Até pelo contrario, basta observar as brincadeiras infantis para verificar que essa forma de brincadeira se desenvolve e ganha em diversidade a medida que as crianças crescem. Virar cambalhota, plantar bananeira, pular corda, bater bola, são atividades que fazem o prazer e a diversão das crianças. Também os jogos de exercício intelectual se desenvolvem e se diversificam com o crescimento. As perguntas de “o que é o que é”, o gosto de aprender enigmas para serem proposto a outras crianças ou adulto, o prazer que as crianças encontram neste tipo de divertimento parecem estar relacionado em colocar o outro numa armadilha apenas para exercitarem e demonstrarem socialmente o que já sabem.
Os jogos de combinação de palavras com o desenvolvimento da linguagem podem se diversificar quando a criança tem condições de aprender e reproduzir adivinhas, parlendas e trava-línguas.
Fonte: Professor da Pré Escola, vol.1 – MEC 1995
Baseado no vídeo Menino, quem foi teu Mestre?
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