quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

TEXTOS DE APOIO V - ADI´s

Deliciosas rotinas
Nem sempre o que parece monótono é ruim


Se um casamento não dá certo, botam a culpa na rotina. Se alguém vive sem motivação: “É a rotina”. Se a criatividade de uma empresa cai, fala-se logo em rotina.
Essa má fama, que associa a palavra a tudo o que é tedioso – burocracia, ramerrão, acomodação, monotonia, mediocridade – não leva em conta outras rotinas, algumas até vitais.
Um casal amigo meu todo ano vai a Paris e a algum outro lugar. Sempre assim: Paris e mais uma cidade da Europa, durante a primavera. Monótono, não? Um outro vai ouvir Wagner em Bayreuth, entra ano, sai ano. Sei de um sujeito – incrível – que dá uma escapada todo ano com a ex – esposa, hoje casada, ele também casado, sempre no mesmo dia, sempre no aniversário de namoro deles. Rotina...
Algumas virtudes estão associadas à rotina: segurança, harmonia, padrão de qualidade, confiabilidade. Para alguns parecerão virtudes um pouco caretas, mas nem por isso são descartáveis. Na produção industrial, por exemplo. E tente desfrutar um bom momento de amor sem algumas delas. Não dá certo. Por que então, a má fama?
A rotina é a batida que se repete. A vida depende dela. No coração, ela se chama ritmo; sem ela, pifamos. O corpo tem  sua rotina e é ela, são os ciclos repetidos do corpo que criam a fecundidade, o apetite, a dejeção, o amor.
Já pensaram que canseira se o coração batesse descompassado a cada minuto? Se fosse assim, como iríamos saber que estávamos apaixonados, ou que não estávamos? Santa rotina do coração! Imaginem se o estômago não cumprisse sua rotina e não marcasse pontualmente sua hora: que seria do prazer de comer sem o apetite? E que seria do amor? Ele tem seus dias santos: o aniversário da amada ou do amado, o aniversário de namoro, de casamento, o Dia dos Namorados, o Natal, o Ano-Novo – são, todos esses, dias de dar um presentinho, de caprichar nos agrados, rotineiramente.
Cada casa e casal tem sua rotina, que dá ordem e paz. Qualquer quebra inquieta: Chegou tarde, meu bem. O encanto de certas amizades está na rotina: “Toda semana a gente se telefona”, “Todo sábado a turminha se encontra para uma cervejinha”, “Todo jogo de nosso time a gente vê junto”. Mesmo a vida religiosa tem a rotina semanal do culto, da missa, da oração.
Os astros, o Sol, a Lua, os planetas têm sua rotina de bilhões de anos. Sem ela, que seria dos horóscopos, dos crepúsculos, das marés e das serenatas? Que seria da música sem a rotina do ritmo? Da gostosa comida caseira sem o batidão das cozinheiras? De nossas manhãs sem o café com leite e o pão com manteiga? Que seria dos atletas sem os repetidos treinamentos? Nem o computador funciona sem o passo – a – passo de sempre.
Como poderia haver coisa nova se não fosse a rotina? Sim, porque novidade é tudo o que sai da rotina, e se não houvesse esta não haveria aquela. Ou só haveria aquela – e aí deixaria se ser novidade, seria rotina...
Então, que monotonia é essa que deploramos? Desconfio de que não nos referimos exatamente à rotina, mas à mediocridade, à  incompetência, à falta de criatividade. Não é por fazer amor sempre aos sábados que um casal se irrita no domingo: é porque não foi bom.
Até mesmo a natureza, de que todos fazemos parte, homens, bichos, plantas e coisas, tem a sua grande, a sua enorme e criativa rotina: o verão, com seu calor a madurar os frutos e dourar os corpos; o outono, com seus ventos a varrer folhas após a colheita; o inverno, com sua seca gelada e seus dias luminosos a descansar a terra e as sementes; a primavera, com suas flores e promessas de novos frutos – e tudo  recomeça, ano após ano, em eterna rotina. É a vida.

Ivan Ângelo
VEJA SP, 24 DE JULHO, 2002

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